sábado, 15 de novembro de 2008

A Cruz e o Pináculo

Conhecia Helmut Thielicke do livro Mosaico de Deus. Comprei e comecei a ler As tentações de Jesus, também dele. O livro é bom: foram três edições em alemão.

Uma expressão sua me encantou (ouvindo-a, Meacir concordou: "Puxa, que lindo!"): "Deus aproxima-se silenciosamente, sem ser notado por ninguém, entra pela porta dos fundos do mundo, e repousa no estábulo de Belém". O Deus silencioso! O mesmo Deus que respondeu a Elias contrariando a sua expectativa. Não veio como terremoto, vento despedaçador ou fogo, mas como brisa mansa e suave.

Satanás oferece o pináculo do templo: "Lança-te daqui abaixo". Que conselho! Na hora do culto, a multidão indo ao templo, Jesus pula e quando vai se esborrachar, anjos surgem e o depositam suavemente no chão. Fantástico! Por que a cruz? Por que o sofrimento? Há meio mais fácil! Se a questão fosse como hoje, atrair gente, o conselho de Satanás seria o melhor. Mas Deus tem seus planos. Ele age de maneira diferente da que pensamos (como com Elias) e muitas vezes no silêncio, como na encarnação.

Por que esperar raios, trovões e fumaças e não ver a mão de Deus no amigo que, sem saber de nossa dor, foi tocado por Deus para orar por nós? Por que não ver a mão de Deus na palavra de um irmão ou do professor da EBD, ou do pastor, que vem ao nosso encontro, nos conforta, lança luz e dirime questões?

Em Jesus, Deus entrou pela porta dos fundos do mundo, à noite, e foi dormir num estábulo. Este é o maior de todos os milagres, a encarnação. O Eterno entrou no tempo, o Infinito entrou no espaço, o Santo veio aos pecadores. Deus é desconcertante! Faz o que quer, quando quer, sem dar satisfações, e não precisa que tomemos atitudes pouco sábias e, algumas vezes, ímpias. Como Pedro, quase matando Malco, à espada. Se Jesus quisesse, o Pai o livraria.

Duas questões são fundamentais. A primeira é quem Deus é. Ele é grande e é poderoso. Pode nos usar, pode se servir de nós, mas não precisa de nós. Saía-se bem antes de nós e quando nos formos, irá bem. Cuidado com cultos e pregações tipo pináculo do templo para promover seu reino. Ele não precisa de estardalhaço (e isto serve para a barulhada terrível de boa parte da liturgia de muitas igrejas hoje!) nem de sensacionalismo. A divulgação do seu evangelho, de seus atos e feitos, vem pelo testemunho, pela vida, pelo caráter e pela proclamação com a vida. Deus sabe "se virar". Não precisamos "forçar a barra". Ele não é incompetente nem o evangelho é uma tranqueira que precisa de artifícios desonestos. Ele precisa de quem viva sua palavra e não de quem a infle artificialmente.

A segunda questão é o que o evangelho é. Conteúdo e não rótulo. Miolo, não casca. E se impõe pelo que é, pelo que diz, pelo que mostra, e não pelo adorno e enfeite que lhe damos. A igreja tem tornado o evangelho palatável aos homens, e muitas vezes lhe tira o conteúdo para vender um produto agradável. É a graça barata, a liturgia barata (e pobre, porque a liturgia atual é barulho e sacolejo com conteúdo paupérrimo), o testemunho barato, a vida fácil. Jesus não fez concessões. O evangelho não seria divulgado pelo pináculo, mas pela cruz.

O evangelho é cruz e não pináculo. Não a substitua por ele. Nem a leve para lá. Assuma-a. Proclame-a. Cruz, e não pináculo.

Isaltino Gomes Coelho Filho

www.pilb.blogspot.com

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